Centro de Estudos Psicanalíticos

Falo e Contemporaneidade

Autora: Clary Khalifeh

Resumo: esse trabalho aborda o conceito de falo, enquanto significante da falta, a partir do Édipo e da castração, tal como desenvolvido por Freud e Lacan. Sob essa ótica, descreve características do sujeito na sociedade contemporânea, em que se destaca a incompletude estrutural do ser humano.

  Falo e Contemporaneidade

Clary Khalifeh

Esse trabalho visa abordar alguns traços do homem contemporâneo sob o prisma de um conceito psicanalítico fundamental: o falo.

O que é o falo?  Tanto Freud como Lacan teorizaram sobre as noções de falo e castração a partir do Édipo.

Freud deu um enfoque interacionista ao Édipo do mito grego. Vê neste último entidades que interagem e se influenciam mutuamente no triângulo formado pela criança,  mãe e  pai. Simplificando ao extremo, a mãe é o objeto de desejo do filho, que o pai vem proibir, ocorrendo assim a castração. A castração se refere à perda do pênis. Para Freud, o falo é uma articulação entre a crença infantil de que todos têm pênis e a constatação de que nem todos o têm.

Já Lacan muda o enfoque do Édipo e vê nele funções subjetivas que se constituem como entidades no próprio processo. O Édipo, para ele, está centrado no falo e no narcisismo. A criança quer a plenitude narcísica, um estado onde nada lhe falta. A castração se refere à perda da onipotência narcísica e o acesso ao simbólico. O falo seria então o significante de uma falta ou desejo. O falo reúne tudo que tem valor para uma cultura. É a cultura que dá ao sujeito a noção do que tem valor ou não. O falo, enquanto significante da falta, é algo que circula, tal como o anel no jogo do passa-anel, segundo a metáfora desenvolvida por Lacan.

Ambos, Freud e Lacan, definem a falta como estrutural no ser humano. A vida toda sentimos nostalgia de uma plenitude perdida. Assim, configura-se no sujeito uma incompletude fundamental.

O sociólogo Norbert Elias, ao longo de sua obra, abordou a questão da relação entre os processos sociais e a subjetividade. Segundo ele,  o contexto social molda  economias psíquicas diferenciadas. Os processos sociais trazem mudança nos ideais, nos desejos, na subjetividade. Da mesma forma, podemos considerar que a falta assume formas diversas conforme a cultura em que está inserido o sujeito.

Na sociedade contemporânea, torna-se cada vez mais visível e presente a sensação de incompletude do ser humano. Na clínica multiplicam-se os sintomas ligados à depressão, alcoolismo, adições, bulimias, anorexias, etc.

Maria Rita Kehl se debruça sobre a clínica atual da depressão em seu livro “O Tempo e O Cão – A Atualidade das Depressões”.  Segundo ela, o sujeito vive hoje numa sociedade que o estimula a um gozo infinito. Ele tem de ser feliz, bonito, magro, rico, etc. O que tem valor fálico é ser feliz, viver intensamente, ter o maior número de seguidores no Twitter… Esse é um gozo que nunca alcança o seu objeto. O sujeito se vê então fora de sintonia com a euforia generalizada da sociedade. O que tem valor fálico não é a angústia como parte da condição humana e da luta para a afirmação de um projeto próprio e sim o prazer, a festa, a euforia. O falo está no sorriso dos famosos da revista Caras. O sujeito que não consegue responder a esse apelo pelo gozo se deprime.

Em um outro registro, o filósofo Gilles Lipovetsky descreve a sociedade ocidental atual como hiperconsumista e hiperindividualista. Constata que o sujeito da sociedade hipermoderna (termo cunhado pelo autor para designar a sociedade ocidental pós-moderna) se alimenta da cultura do prazer. De acordo com ele, “quanto mais somos estimulados a comprar compulsivamente, mais aumenta a insatisfação. Desse modo, a partir do momento em que conseguimos preencher alguma necessidade, surge uma necessidade nova, gerando um ciclo em forma de “bola de neve” que não tem fim.” De fato, a insatisfação é constante:  consumimos um objeto após o outro, e nada satisfaz. Ou seja, atribuímos um valor fálico a determinado objeto que, uma vez adquirido ou consumido, perde esse valor. O falo vai circulando de um objeto ao outro, num ritmo cada vez mais acelerado, que acaba por acentuar a falta. O sujeito busca uma sucessão de experiências e de prazeres para os quais não há limites.

Mas esse “sem limites” evidencia ainda mais a sua falta, e isso se traduz também na medicalização excessiva. De fato, em busca da felicidade através do consumo (tanto de objetos quanto de sensações e de experiências), o sujeito não se permite vivenciar a tristeza e quer tamponar sua falta através de remédios (vide o consumo multiplicado de anti-depressivos e de “drogas da felicidade”).

Se, por um lado, a abundância dos bens de consumo tem como reflexo um apelo enorme ao desejo, a descartabilidade desses bens alimenta e estimula o processo. Tudo torna-se descartável, inclusive as pessoas e os vínculos. Um exemplo disso é a prática difundida entre os jovens de “ficar” (ou seja, namorar sem estabelecer nenhum vínculo por uma noite apenas).

Em suma, a contemporaneidade é marcada pelo “sempre mais, sempre novo”. Os objetos e experiências de consumo cumprem uma função do falo: a ilusão da completude. Procura-se manter a ilusão de que não falta nada. A imagem fálica é aquela à qual nada falta. Lacan destaca nesse processo o desejo inconsciente de voltar à onipotência narcísica infantil.  O sujeito contemporâneo, em busca do “paraíso perdido”,  traduz sob novas formas a essência do ser humano, a de ser eternamente incompleto.

 Bibliografia:

Bleichmar, H. “Introdução ao Estudo das Perversões”
Elias, N.”Au-delà de Freud. Sociologie, psychologie, psychanalyse”
Freud, S. “O Ego e o Superego (Ideal do Ego)”
Kehl, M.R. “O Tempo e o Cão – A Atualidade das Depressões”
Lipovetsky, G. “A Sociedade da Decepção”
Lipovetsky, G. “Os Tempos Hipermodernos”

 


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