P. e Silva, José Henrique. A CONTRATRANSFERÊNCIA E OS PROCESSOS PSÍQUICOS DO ANALISTA DURANTE A ANÁLISE

Resumo: Este trabalho aborda o tema da constratransferência, incluindo a apresentação de um caso clínico.

 

Este ano iniciei meu atendimento clínico1e, de imediato, me vi na questão da relação da teoria com a prática. O pano de fundo foi a CONTRATRANSFERÊNCIA, uma questão que fala do lugar do analista na clínica. É sobre isso que quero discutir. E, para isso, vou começar com o esquema montado por Nasio2para mostrar a evolução da técnica psicanalítica quanto ao tipo de ação do terapeuta. Ele nos fala de quatro períodos:

No 1º período, o da catarse, caberia ao terapeuta extirpar um corpo estranhoencravado no inconsciente do analisando, com a descarga dos afetos ligados à ideia patógena. No 2º período, também freudiano, a tarefa seria a de interpretar para tornar consciente. A interpretação seria uma proposta de uma ideia semelhante à patógena para atraí-la para o consciente. Sua rememoração consciente suprimiria o mal. No 3º período a tarefa é de interpretação propriamentedita, ou seja, a simples tomada de consciência pode não eliminar o mal, pois existe segundo Freud, uma estranha possibilidade de conciliar a tomada de consciência com a ignorância do mal. Assim, mesmo com toda explicação o recalcamento persiste. Seria uma forte resistência do Eu ao desprazer da emergência do recalcado, à dor3. No 4º período, mais atual, após os anos 50, a tarefa é a de ocupar o lugar do objeto. Aqui Nasio recorre a Lacan. Aquele núcleo patógeno (desejo, fantasia), oculto no inconsciente e que era preciso extirpar, agora está fora do analisando, é o “objeto a”, “objeto da pulsão”, o “Eu recalcado”. E esse lugar, esse objeto, funciona como um atrator, atraindo a libido para si e cria a transferência. É esse lugar do objeto que o analista deve ocupar.

Então que tipo de analista se quer? Alguém, segundo Lacan, que ocupe essa função de objeto atrator, e isso ele vai conseguir a partir de seu “desejo de psicanalista” e da “contratransferência“. É neste ponto que gostaria de chegar. Para Lacan a contratransferência seria o conjunto de obstáculos imaginários que se opõem a essa ocupação do lugar do objeto. Assim, como Nasio afirma, o termo contratransferência se define não no interior da relação do psicanalistacom o seu paciente, mas no interior da relação do psicanalista com o lugar do objeto. Logo, a contratransferência não deve ser situada entre o analista e o paciente, mas entre o analista e o lugar, entre o analista e o lugar do objeto4.

Nasio nos lembra que Ferenczi, já em 1928 chamava a atenção para a necessidade de uma metapsicologia acerca dos processos psíquicos do analista durante a análise, ou seja, acerca de sua “oscilação libidinal”, um movimento pendular que o faz identificar-se e controlar-se. Ele não pode, afinal, expressar livremente seu narcisismo como no dia-a-dia. Para Ferenczi, esse controle exigiria do analista uma espécie de “higiene especial”. De alguma forma, Ferenczi segue a recomendação de Freud5de que a contratransferência era um obstáculo, que passara despercebido, e precisava de medidas adequadas para sua superação, principalmente devido à dois tipos de expressão da contratransferência: a “ligação afetiva” ao paciente e o “saber” que leva o analista a escolher o material que vai ser interpretado (o que contrasta com a “regra fundamental”). Quanto à esta questão específica Freud recomendava estar atento a tudo, ter atenção. Mas, Nasio, coloca a possibilidade de o analista partir com uma espécie de “hipótese de bolso”, relativa, parcial e provisória, sobre o que pode estar ocorrendo. Particularmente, não vejo contradição alguma, pois estar atento não impede se trabalhar com uma hipótese, e vice-versa.

Mas, voltemos à contratransferência. É praticamente consenso que os autores considerem a contratransferência como um obstáculo a ser superado. Esta é a posição inicial de Freud e é sobre ela que vão surgir duas grandes correntes: a que identifica a contratransferência com o conjunto das reações, sentimentos, pensamentos e atos do psicanalista diante do paciente; e a que reduz a contratransferência às manifestações exclusivamente inconscientes do analista.

Esta divisão já havia sido apontada em 1982 por Laplanche6, que opta pela segunda posição ao dizer que a contratransferência é o conjunto das reações inconscientes doanalista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste. Mas, ele ainda nosdiz que só à medida que o tratamento clínico cada vez mais foi descrito como “relação”, e quando a análise foi estendida para crianças e psicóticos (onde a reação inconsciente é mais solicitada) é que o tema da contratransferência foi melhor estudado.

Nesse sentido, é que gostaria de enfatizar que concordo com a primeira corrente, desde que aquele conjunto de movimentos do analista não seja visto exclusivamente como obstáculo, e sim como “motor”, como “instrumento de tratamento” (como defendeu Winnicott), e que concordo também que ocorra a contratransferência inconsciente, mas não exclusivamente inconsciente. Uma espécie de encontro de inconscientes, também.

Quanto a esse aspecto, Daniel Lagache, citado por Laplanche, diz que, então, nem só a transferência é própria do analisando em a contratransferência é própria só do analista. Ele diz: se considerarmos o conjunto do campo analítico, conviria distinguir, em cada uma das duas pessoas presentes, o que é transferência do que é contratransferência7.

Vou guardar, por um instante, essa aceitação da contratransferência como “motor” e como “movimento inconsciente”, para relatar uma situação específica.

 

Caso Clínico

Trata-se do caso de R., uma criança de 10 anos, que chegou ao consultório com uma queixa (da mãe) de comportamento agressivo e intolerante. As duas primeiras sessões causaram forte transferência da parte de R. Ele negava qualquer sentido em estar ali, não via nenhuma necessidade e dizia que o local era só para doentes, o que não era o seu caso.

Nas duas sessões iniciais ele sentou-se, predominantemente de cabeça baixa, com os braços recolhidos junto ao corpo, mas sem que isso implicasse em qualquer posição de submissão, e sim de intolerância mesmo. Ele negava-se a qualquer conversação. Era monossilábico, respondia mais vezes com o movimento do corpo. Por outro lado, sempre que ele entrava na sala a mãe dizia a ele que o “qualquer coisa ela estaria ali por perto”. Essa situação gerava uma situação triangular onde a mãe parecia ter um forte controle tanto sobre R. quanto sobre o analista. Estava gerando um forte incomodo. Mas eu sabia que não se tratava da mãe e sim de minha relação com R. Era isso que, de alguma forma, precisava mudar.

Foi então nos momentos finais da segunda sessão que, me sentindo bastante angustiado por aquele silêncio que me transferia raiva, intolerância e má vontade de estar ali que reagi de forma incisiva a uma colocação que R. me fez. Ele disse: “Quando isso vai acabar? Está na hora de eu ir embora para a escola” (faltavam cerca de 10 minutos). Só depois reconheci um movimento contratransferencial que fiz como resposta. Eu disse: “Voce vai pra escola sim, e sua mãe está lhe esperando ali fora para levá-lo. Mas, me parece que na próxima semana, neste horário, nos vamos nos encontrar novamente”. No momento a frase me pareceu absurda e sem sentido. Mas, senti que, de alguma forma, eu estava querendo lhe dizer claramente que ele “não ia escapar tão facilmente” e que nós teríamos que nos suportar pelo menos mais uma vez.

Para minha surpresa, na terceira sessão muita coisa mudou: ele entrou na sala e dessa vez a mãe não falou nada. Ao invés de sentar ele andou pela sala, olhou os brinquedos, fez perguntas sobre eles e sentou-se em outro local. Escolhemos um jogo. E ele logo se sentiu confortável com o jogo a ponto de dar boas gargalhadas. Ao final da sessão me cumprimentou apertando a mão e disse, na frente da mãe: “até a próxima semana Henrique”.

Algo aconteceu. Eu lhe fiz um “convite” e ele aceitou. Não foi um movimento consciente, nem usei a contratransferência como “motor”, mas ela, inconscientemente assim funcionou, e mudou nossa relação.

Com isso, percebi que, na minha posição de analista eu não poderia esperar pura e simplesmente uma transferência da parte dele para ser interpretada. Há algo mais que isso numa sessão de análise. E, nesse aspecto, o comentário de Daniel Lagache é muito oportuno, ou seja,

É preciso distinguir, no analisando e no analista, o que é transferência e o que é contratransferência. Trata-se de um campo relacional bem mais complexo. Sobre isto vejamos o que Antonino Ferro8nos tem a contribuir. Como disse Laplanche, foi a partir do momento que o tratamento foi entendido mais como uma “relação” que a contratransferência pôde ser melhor entendida.

O que Ferro nos trás é a crítica à rigidez da interpretação, geralmente feita fora deste “campo”, sem reconhecer a existência de um “par”, ali, empenhado no trabalho. A partir desta crítica, o analista deixa de ser o “árbitro inquestionável” da situação analítica. No “campo” paciente e analista se influenciam mutuamente e a interpretação é pensada como “algo construído a duas vozes”. Duas pessoas estão juntas no consultório, e almejam conseguir uma comunicação entre si,para caminhar no sentido de aprofundamentos maiores.

Não se trata, portanto, de simplesmente partir para um trabalho “arqueológico”, “reconstrutivo”, ou ainda, partir de uma teoria, externa, pronta e acabada, para analisar as projeções do paciente sobre o analista. Há algo mais. Ou seja, na sessão, estão em jogo emoções, ou melhor,estados de espírito muito primitivos, que não tiveram ainda acesso à possibilidade de serem pensados e que estão aguardando que o analista e o paciente, usando todos os meios disponíveis, saibam recolhê-los, não permaneçam neles submersos, e possam narrá-los um ao outro9.Ou seja,no fundo, o par analítico está buscando comunicar as emoções que o invadem, por isso que, frequentemente, os personagens são “criados” ali, no encontro das mentes; são como que meios para esse compartilhar, narrar e transformar.

Neste modelo, a característica central estaria no valor diferente atribuído à vida mental do analista durante a sessão. Depois de Bion, não dá mais para desconsiderar a contínua interação entre analista e paciente, determinando o percurso da análise.

Para Bion, o analista está presente com todo o peso atual da sua vida mental; as identificações projetivas não são somente as evacuativas e perturbadoras do paciente em direção ao analista, mas são também uma modalidade normal das mentes dos humanos para comunicar; serão, portanto, recíprocas e cruzadas. A história que se desenrolará será absolutamente nova, e “par especifico”, tanto nas evoluções criativas quanto nos resultados cicatriciais e nas mutilações. O que conta não é tanto a atividade interpretativa decodificadora, mas a real operação de transformação das identificações projetivas do paciente, que a mente do analista saberá realizar, levando em conta que ele próprio é parte ativa no determinar os fatos que, enquanto observador, já contribui para determinar tão-somente com a sua presença, e ainda mais com a própria ordem defensiva e com as próprias identificações projetivas. As defesas do analista, a sua maior ou menor permeabilidade em acolher as identificações projetivas do paciente, as verdadeiras operações de alfabetização dos elementos beta provenientes do paciente (e também as próprias), que ele souber realizar, constituirão a redação da outra metade da história da análise10.

Assim, não está somente em jogo o trabalho sobre a repressão (Freud) ou sobre a cisão (Klein), mas sobre o “lugar” para se pensar os pensamentos, sobre o continente, mais do que sobre o conteúdo. Trata-se de uma operação afetivo-emocional, de uma busca por estar na mesma tonalidade afetiva do paciente, oferecendo-lhe um modelo de relação mental que possa introjetar, e que trata-se menos de “dados”, “verdades objetivas ou históricas”, e mais de “qualidades” (paciência, paixão, etc.).

Há, portanto, um claro gosto pelo mistério, pelo enigma, pela investigação. E quem investiga perde a sua imunidade, pois se expõe a todo tipo de perigo – trata-se de algo, de uma postura, muito mais criativa, distinta de uma psicanálise monopessoal e asséptica, feita de reconstruções de estruturas investigadas. Trata-se, como diz Ferro, de um analista-Poirot, que investiga uma história passível de contínuos remanejamentos e transformações; uma história formada de micro-histórias à espera de “pensabilidade”, de outras possibilidades de sentido, que não podem ser obstruídas pela história dominante.

Concluo que, na “relação”, portanto, mesmo “higienizada” pela auto-análise e pela análise pessoal, não há garantia nenhuma de que a relação analítica se estruture somente pela transferência do paciente, projetivamente. Assim, a contratransferência deixa de ser um obstáculo e passa a integrar o conjunto do trabalho analítico, como “motor” e “instrumento”, e como comunicação de inconsciente a inconsciente.

Assim, gostaria de enfatizar que minhas impressões são as de que a teoria é sempre insuficiente em relação à prática. Estamos sempre em busca de uma compreensão a mais, de algo que escapa à qualquer enquadre teórico e metodológico. O modelo teórico e a técnica metodológica são guias, Mas não garantem a travessia de um tratamento se não atentarmos às especificidades de nossa postura enquanto analistas e às necessidades específicas do paciente.

É nesta relação entre paciente e analista, portanto, que reside um dinamismo que é muito próprio da psicanálise enquanto prática científica: seu avanço constante, à medida que avança nosso conhecimento acerca da realidade psíquica e social do sujeito. Desse avanço, complexo, resulta um conjunto de teorias e técnicas, muitas vezes, complementares, e não excludentes, que precisam ser colocadas à disposição do paciente, sem dogmatismo. Nenhum modelo teórico ou técnica analítica é suficiente para dar conta da realidade psicossocial do sujeito. Daí minha crença de que a melhor técnica é aquela que melhor me atende enquanto profissional e que melhor serve à resolução das questões trazidas pelo paciente.

É, portanto, na complexa relação entre analista e paciente, na clínica, que a psicanálise entra seus desafios e oportunidades para avançar na contribuição à tentativa de desvendar a natureza humana. Uma frase do prof. Cláudio Waks me chamou muito a atenção, pela sua simplicidade e alcance: a melhor técnica é aquela que serve ao paciente11.

Bem, para finalizar, um comentário pessoal. Pensar a contratransferência desta forma foi um desafio, pois em minha trajetória no CEP não me lembro de ter estudado Bion. E gostaria que esta minha iniciativa fosse vista mais como uma vontade “investigar”, “explorar” um pouco mais, no sentido de avançar, de me reconhecer na clínica. Claro, estou só começando. E este, realmente, é só o começo.

 

Notas: 

1 Atualmente estou atendendo a dois pacientes, uma criança de 10 anos e um homem de 41 anos.

2 NASIO, Juan-David. Como trabalha um psicanalista?Tradução de Lucy Magalhães; revisão técnica de Marco Antonio Coutinho Jorge. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. © 1999. Capítulo V, p. 99-119.

Sobre esta resistência, Freud propunha 5 tipos à medida que sua teoria evoluía: 1) a resistência do recalcamento (o ego investe outras representações para desviar a energia psíquica patógena); 2) a resistência do benefício primário e secundário da doença (é o apego do paciente à sua doença e contra seu restabelecimento); 3) a resistência do Isso (é a compulsão a repetir, a persistir); 4) a resistência do Supereu (o sentimento inconsciente de culpa através do qual o paciente acredita estar sofrendo para expiar um erro); e 5) resistência de transferência (o analisando prefere sentir a dor da paixão transferencial a sentir a dor da emergência do desejo inconsciente) – todas destinam-se a eliminar o surgimento da dor.

4 Nasio (1999), p. 106.

De acordo com Nasio esta preocupação de Freud pode ser vista em um texto de 1910 chamado “O futuro da psicanálise”, por ocasião do II Congresso psicanalítico, em Nuremberg.

6 LAPLANCHE, Jean. Vocabulário da Psicanálise/ Laplanche e Pontalis; sob a direção de Daniel Lagache; tradução de Pedro Tamen. – 4ª edição. – São Paulo: Martins Fontes, 2001. © 1982. Verbete “Contratransferência”, p. 102-103

7 LAGACHE, Daniel. Citado por Laplanche, p. 102.

8 Ferro, Antonino. A Técnica na Psicanálise Infantil – a criança e o analista: da relação ao campo emocionalTradução de Mercia Justim. – Rio de Janeiro: Imago Ed., 1995 © 1995, 228p.

9Ferro (1995), p. 16.

10Ferro (1995), p. 26-27.

11WAKS, Cláudio. Aula proferidaem 04/05/2010 sobre o tema “Recordar, Repetir, Elaborar”.