A. Oliveira Mourão, M. Ludmila. A CULTURA DO POLITICAMENTE CORRETO E AS QUESTÕES INFANTIS: INCOMPATIBILIDADES E DESAFIOS

A cultura do politicamente correto está presente hoje nos mais diversos lugares, onde um olhar de uma criança pode estar: desenhos, brinquedos, músicas, filmes, etc. Somente entrando no ‘universo infantil’, participando do cotidiano de uma criança, seja como pais e/ou educadores, para se ter noção da dimensão que essa cultura tem hoje, a forma como essa idéia está incutida e do lugar que ocupa em nossa civilização.

Uma característica muito comum hoje dia é o da objetivação da linguagem, a forma como a linguagem está sendo tomada hoje, de maneira objetiva. Como se houvesse uma relação de correspondência entre uma palavra e o significado. Para cada significante, um significado. Estabelecendo uma relação direta entre significante e significado. Tomo como exemplo a versão adaptada do clássico “Atirei o pau no gato”.

“Não atire o pau no gato/Porque isso não se faz/o gatinho é nosso amigo/não devemos maltratar os animais/ jamais”

É como se a linguagem tivesse perdido sua principal característica, que é a de representação. Ela representa os objetos, as coisas, a realidade e inclusive a gente. Nós somos representados pela linguagem, pelos significantes que recebemos do Outro. A linguagem é prévia ao nosso nascimento, quando chegamos, quando um bebê nasce, já existe todo um aparato discursivo, não só da cultura, mas também familiar, mas precisamente de quem irá recebê-lo, dos pais, de quem fará essa função. O bebê já é falado antes de nascer. O que se diz dele? Que lugar psíquico irá ocupar? Que lugar no psiquismo dos pais. Como será incluído? É o que chamamos de berço simbólico, o lugar que o bebê ocupará simbolicamente.

O bebê nasce “prematuro”, mesmo nascendo a termo. Há uma prematuridade psicofisiológica, é o único animal que não sobrevive sozinho quando nasce. Seu corpo é desamparado por uma insuficiência orgânica e uma imaturidade neurológica. Então essa prematuridade o coloca em uma condição de extrema dependência ao outro, tanto orgânica como psíquica.

O que vai dar, aos poucos, uma noção de uma unidade corporal é o olhar do outro sobre ele, o olhar materno, ou de quem exerce essa função. É o olhar que volta para o bebê que o constitui, que constitui seu corpo. Essa imagem que volta para o bebê é chamada de imagem ortopédica, porque aonde se tinha uma vivência de um corpo despedaçado se torna uma unidade corporal.

Então é justamente a nossa inserção na linguagem que nos faz humanos, nos torna capaz de estabelecer uma relação metafórica com a realidade. Não mais uma relação direta e sim intermediada, simbólica. Possibilidade de vários significados, particulares, únicos, portanto, não universais. Espaço para os equívocos, enganos, desencontros, etc.

Nessa tentativa de objetivação da linguagem, há uma supervalorização do sentido. Como se “tudo tivesse que ter sentido” e como se ” o sentido fosse tudo”. Como se a linguagem fosse o sentido.

Comunicação de sentido. E, ao contrário do que se possa pensar, a linguagem é muito mais função de representação do que de comunicação. O ser humano está sempre tentando se representar pela linguagem.

Então, quando a letra de uma música é adaptada, parece que só o sentido conta. A sonoridade, a melodia, o ritmo, como algo para além do sentido, ou melhor, aquém do sentido, não são contados. Os sons da palavra chegam ao ser humano antes de seu sentido e nos marca, nos afeta, produzindo inscrições psíquicas.

As canções de ninar nem sempre tem letra, e se tem não faz sentido para o bebê, o que conta mesmo, que o toca, que o acalma é sua melodia. É por isso que somos capazes de nos emocionar com o som de um instrumento musical, com uma música clássica, ou mesmo com uma canção em uma língua desconhecida. Isso encontra ressonância em nosso corpo.

Em outra versão adaptada “o cravo não brigou com a rosa”, fica evidente uma negação que denota uma idealização da infância, como um momento em que não poderia haver frustrações, sofrimentos, perdas. Ideia de que a criança não pode lidar com isso, não tem recursos ou condições de suportá-lo. Crença em um ideal de perfeição, onde a falta não é bem-vinda, não pode aparecer. Por que o cravo não pode brigar com a rosa?

Porque não pode haver desencontro nas relações, um não pode não corresponder ao que o outro espera. Nada pode faltar! E é justamente a nossa marca fundamental. É por meio desta que se dá a constituição psíquica.

Pensando na relação da mãe com o bebê, inicialmente tem-se uma ilusão de completude , que é fundamental para a constituição do bebê, “ser tudo para o outro”, estar em um lugar especial, privilegiado, estar em primeiro lugar. Porém, em um segundo momento, é preciso que algo falte nessa relação, que algo desvie o olhar da mãe em outra direção. Momento do “não sou tudo para o outro”.

A sexualidade para a psicanálise não tem a ver só com a anatomia, mesmo porque esta não dá conta do que é um homem ou uma mulher. As questões da sexualidade são, na verdade, questões próprias da estruturação do ser: O que sou para o outro? O que cada um fará com isso? Como irá se posicionar? Como os homens da minha família se posicionam? O que as mulheres fazem com isso?

Como a criança acessa a sexualidade em uma cultura em que todo o símbolo de negatividade (falta) é excluído?

Parece-me que não há lugar para os “problemas”, para a dor. A criança não encontra lugar, na cultura, na sociedade que está inserida, para a sua falta, para aquilo que não funciona, que não corresponde, que angustia. Ao invés disso, encontra imperativos que dizem para esquecer seus impasses, como se realmente estas não pudessem tê-los, ou não existissem.

Outra característica atual são os desenhos e brinquedos educativos, com objetivos definidos.

Deixaram de ser lúdico, “despretensioso” e passaram a ser educativo, prontos para desenvolver habilidades. Há uma ética utilitarista, uma ideia de que tudo tem que ter uma função, um objetivo, tem que servir para alguma coisa. Esses “objetivos” são ofertados aos pais como um produto a ser vendido, consumido. “Se seu filho assistir este desenho desenvolverá habilidades reconhecidas socialmente ou até no mercado de trabalho”. E essas habilidades variam de “trabalhar em equipe” a “estimular a amizade”! A que ponto chegamos!

Há uma supervalorização dos saberes sobre a criança em detrimento do saber dos pais sobre aquela criança. Significantes Mestres X Significantes próprios

Se por um lado há uma tentativa de isentar os pais, como “Deixe que nós educamos o seu filho”, por outro, os pais parecem cada vez menos “autorizados” a exercer essa função, sentem-se, por vezes, inseguros, incapazes de tomar decisões cotidianas próprias, como um castigo, por exemplo. Hoje o “cantinho da reflexão” talvez seja a “fórmula” mais difundida, onde o tempo do castigo é contado em minutos de acordo com a idade da criança. São os reallitys shows educativos, que dão respostas prontas, visando a generalização. Mais uma característica da cultura atual: a produção massiva de respostas pré-fabricadas. O que pode parecer mais fácil e mais seguro para os pais, me parece uma questão da relação desses com seus filhos , pois acaba havendo, em algumas situações, um distanciamento dos pais, uma não apropriação. As relações entre pais e filhos ficam atravessadas por outros saberes universais, sendo que, o que a criança realmente precisa é de algo que a singularize, a ela e a seus pais, sua família, que estas possam ter marcas próprias, que particularizam cada uma. Uma frase do século XIX mas extremamente atual.

“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira” Tolstói

Acredito que tem uma diferença entre pensar a educação como transmissão de conteúdos, apenas, ou como transmissão de marcas de desejo. Pensando que não existe desejo sem falta, pois é a partir desta que o desejo pode aparecer. Tem mais a ver com a relação dos pais e/ou professores com a aquele conteúdo, que o causa, do que com o conteúdo simplesmente.

A partir dessa configuração, podemos pensar que o lugar que a criança ocupa hoje é o lugar de objeto, objeto desses saberes sobre ela, objeto que pode ser treinado, moldado, etc. E não de sujeito, que se angustia, tem medo, agressividade, etc.

A extinção do mal é, sem dúvida, outra característica que tem marcado essa geração, não sem o espanto e estranhamento de alguns.

A bruxa que não quer mais ser má, o lobo mau que não aparece mais na história da chapeuzinho, são vários os exemplos dos personagens do mal que estão em extinção! Há, sem dúvida, uma tentativa de suprimir o mal, ou maqueá-lo, amenizá-lo. Parece que a cultura até reconhece que a natureza humana não é tão boazinha assim, mas nega, caso contrário, acredito que nem existiria tanto empenho contra o mal.

Há dois pontos importantes para destacar. Primeiro é que há uma ideia de que a criança se identificaria com os personagens do mal e se tornariam pessoas más, realizando maldades. O segundo ponto é de que esses personagens despertariam medo nas crianças e estas não podem sentir medo, pois seria algo prejudicial.

Mas, afinal, o que é o mal?

O Mal é o oposto do bem, portanto representa uma oposição, e é isto que é relevante para a criança, poder ocupar esse lugar de oposição e não as maldades em si. Mesmo porque o simbólico, o lúdico, inclui a dimensão subjetiva, lugar onde prevalecem as representações e não os conteúdos. Na constituição psíquica da criança é fundamental que ela possa se opor, ocupar um outro lugar psíquico, para além daquele que lhe foi concedido, para além daquele que corresponde ao que o outro espera dela. É preciso se separar, e esse processo se inicia na infância, e não na adolescência, como é mais difundido.

Na infância, o simbólico tem uma função essencial, pois o recurso usado para elaborar é a fantasia, presente nas brincadeiras, músicas, desenhos, histórias. Na tentativa de metabolizar suas experiências a criança inventa ficções, teorias sexuais, etc.

Os sentimentos negativos que se tenta o tempo todo evitar, na verdade, já existem nas crianças, e quando elas podem vê-los fora dela, em personagens, quando podem reencontrá-los, tem um efeito apaziguador, de identificação e elaboração. Nós, adultos, sabemos muito bem o que é isso! Apesar de termos outros recursos, como a fala, por exemplo, continuamos nos vendo nos filmes que assistimos, nos emocionando, chorando ou até rindo de questões nossas e que geralmente não renderiam boas risadas!

O bullying é outro assunto que pode ser incluído nesse circuito do politicamente correto. E para falar dele é preciso começar a falar do espaço onde ele geralmente acontece, a escola. A escola é, sem dúvida, a primeira experiência social da criança, é uma experiência de separação, onde, pela primeira vez ela irá se ver longe dos pais. É um momento muito importante, e também angustiante, para ambos os lados, pais e crianças. Esta experiência implica, necessariamente, em ter que desenvolver, criar recursos próprios para lidar com situações “sozinho”, sem a presença física dos pais. Nessa perspectiva, o bullying pode ser pensado como a primeira experiência social de não aceitação do outro, de desagrado, desencontro. E agora, o que fazer diante disso? Como sobreviver a isso? Como se reincluir, sem apagar essa diferença? Exige da criança maneiras singulares de suportar esse lugar onde “não se é tudo para o outro”. Sair dessa situação significa sair de um lugar psíquico, ocupar outro lugar. A saída que a criança pode dar no bullying tem a ver com a saída que ela pode dar na vida. Experiência fundamental para a emancipação psíquica, para a constituição subjetiva.

O que observamos hoje é uma tentativa de blindar a infância e a juventude, que me parece não só uma tarefa impossível, mas também prejudicial, pois tira-se a possibilidade de uma resposta singular da criança perante uma situação a qual é convocada a responder.

Contudo, acredito que a cultura do politicamente correto é uma resposta da civilização às questões infantis, que lhes causam mal-estar. Questões essas próprias da constituição psíquica, próprias do humano. E como tudo isso chega às crianças? Como imperativos que acabam as impedindo de vivenciar seus próprios impasses. Ao invés de encontrarem um lugar para a sua angústia, são tolhidas.

Para concluir, não sem deixar questões, trago uma citação.

“Uma criança pode gerar paixões particulares. Cabe ao analista proteger a criança dos delírios familiares” (Éric Laurent)

A partir do que cabe ao analista no exercício de seu ofício, faço uma questão, na tentativa de ampliar uma discussão:

E dos delírios sociais, a quem cabe essa função?