Apresentação

Unindo diversas experiências clínico-pedagógicas de seus diretores, o Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) iniciou suas atividades em 1980. Gradativamente, foi estruturando uma identidade e articulando uma proposta própria dentro da crescente complexidade do campo psicanalítico paulista.

Em 2021, completa 41 anos trabalhando na investigação clínica, na transmissão e na divulgação da Psicanálise. Em 1997, a instituição tornou-se oficialmente uma Organização Não-Governamental (ONG), com o objetivo de criar uma estrutura que viabilize o desenvolvimento de projetos, adequando os nossos instrumentos teóricos e técnicos às necessidades da comunidade.

Três eixos norteiam a proposta do CEP:

  1. Uma formação pluralista que inclua todos os discursos desenvolvidos no campo conceitual freudiano. Reconhecemos que essa troca entre os discursos é um fenômeno profundamente enriquecedor no desenvolvimento de um referencial clínico-teórico singular e próprio a cada sujeito-analista. Assim, nossa ética deixa de estar submetida ao poder de um dogma único, seja teórico, seja institucional.

 

  1. A consideração da Psicanálise como ciência independente, com seu próprio objeto de estudos, não subordinada a nenhum outro campo científico e, consequentemente, não sendo propriedade de nenhuma ciência-profissão-corporação, mas território específico, que requer uma formação própria.

 

  1. A compreensão da formação como a integração do instrumental-conceitual-experiencial que capacite operar a escuta, não como atividade restrita a um ofício (consultório), mas levando em conta que seu objeto de estudo está presente em toda situação humana, torna a Psicanálise um instrumental potencializador nas diversas práticas sociais.

Ernesto Duvidovich
Walkiria Del Picchia Zanoni

ANO 2022 – 42 anos

Caros colegxs,

E com muito prazer, que apresento a vocês a programação completa para este ano; resultado de inúmeros diálogos e interlocuções. Mesmo satisfeito com o resultado extenso e variado precisei de grande esforço de abstinência diante da quantidade e intensidade das demandas e inquietações que observamos e escutamos ao longo do ano de 2021.

Não somente por se tratar de um ano de eleições no Brasil e nos encontrarmos diante de um sistema democrático ameaçado, mas também porque consideramos que faz parte imprescindível da tarefa de construção constante da nutrição dos psicanalistas a inclusão dos atravessamentos da realidade sócio-histórica-cultural e que vocês encontrarão várias propostas que abordam questões sociais, políticas e suas consequências clínicas.

O crescimento e ampliação das diversas parcerias e dos projetos de escuta em diferentes direções (crianças, adolescentes, psicose, hospitais, comunidades, grupos, instituições, etc.) exigem de nós a agilidade de criar novos espaços tanto de pesquisa e elaboração teórica quanto de contextos de supervisões clínicas que amparem essas ações. A ampliação da abrangência da nossa Rede de Atendimento – Clínica do CEP, nos aproxima de culturas que para respeitar precisamos compreender não só suas circunstâncias atuais como também suas histórias e estruturas simbólicas, pré-requisitos para construção de uma clínica não colonialista.

Continuaremos abordando e aprofundando questões contemporâneas, atuais tais como classe, raça, gênero, heteronormatividade e das novas formas de subjetivação sobre muitos pontos de vista apostando em olhares diferentes para poder compreender e dimensionar sua presença na história da psicanálise, nas instituições psicanalíticas e certamente também nas nossas atitudes clínicas.

No espirito da renovação constante dos nossos desejos de escuta e pela paradoxal potência que as limitações da situação pandêmica possibilitou a ampliação da nossa salutar Torre de Babel: para este ano precisaremos de mais tradutores simultâneos para nossas atividades. Além da preciosa presença do Doutor René Roussillon, multiplicamos a presença de convidados internacionais. É claro que não foi só pela facilitação que os recursos digitais trouxeram, são escolhas pertinentes e delicadas de autores que poderão contribuir mais ainda para o tão rico campo do pensamento psicanalítico no Brasil.

Nossa sobrevivência depende da interação com os outros. As instituições podem ter a forma do mal que o psicanalista tenta constantemente combater (Bleger). A tentação dogmática, o autoritarismo e a homogeneização. Uma instituição que não tem um mestre único (pluralista) não define a inclusão de cada membro e mesmo o importante sentimento de pertencimento de cada membro, não se produz por identificação com o mestre (verdade única); se não se identificando com a solidariedade horizontal da convivência com a heterogeneidade. Isto vale para todos os momentos de crise que nos psicanalistas confrontamos em nossos percursos como neste outro momento de crise: identificação com a democracia.

Um ótimo ano pra todas, todes e todos!

Ernesto Duvidovich