Contin, Adriana. A CLÍNICA FREUDIANA

Resumo: neste artigo procuro fazer uma revisão e reflexão sobre osfundamentos da clínica freudiana a partir da análise e estudos de casos das neuroses de transferência: histeria, fobias e neurose obsessiva. Freud procurou responder às perguntas feitas pelas histéricas e seus enigmas, não respondendo a elas diretamente, mas sim, dando a elas a sua escuta, devolvendo a elas suas próprias falas, ocupando um lugar de suposto saber (Lacan 1969-1970), na fantasia neurótica do paciente, propiciando o amor transferencial, que permitiria ao paciente a possibilidade de construir ele mesmo um suposto saber sobre si, saber sobre aquilo que não se sabe: o inconsciente.

 

A histeria

Ao estudar a clínica freudiana, vemos que o autor fundou sua teoria e sua clínica a partir da análise e estudos de casos das neuroses de transferência: histeria, fobias e neurose obsessiva. Freud percebeu que havia no discurso histéricotantas questões formuladas e a serem respondidas e, ao dar a palavra às histéricas, deu também a palavra aos seus sintomas. Freud permitiu o desvelamento do saber da histérica para então obter o saber sobre a histérica. Ele definiu como irremediável a disjunção entre o saber e o objeto, na medida em que, escutando as histéricas, deu a palavra ao sintoma, para descobrir que o inconsciente é um saber que não se sabe. Ele recusa-se a entrar nos discurso histérico para situar-se no registro do discurso do analista, aquele que nada sabe sobre aquele que lhe fala.Freud procurou responder às perguntas feitas pelas histéricas e seus enigmas, não respondendo a elas diretamente, mas sim, dando a elas a sua escuta, devolvendo a elas suas próprias falas, ocupando um lugar de suposto saber (Lacan 1969-1970), na fantasia neurótica do paciente, propiciando o amor transferencial, que permitiria ao paciente a possibilidade de construir ele mesmo um suposto saber sobre si, saber sobre aquilo que não se sabe: o inconsciente.

Ampliando a teoria freudiana sobre a histeria, Lacan, no seminário, livro 17 “o avesso da psicanálise” elabora a teoria dos quatro discursos (1969-1970). A noção de discurso, de acordo com Lacan, está fundamentada como naquilo que se permite perceber quando se faz uso da palavra. Para isso, devemos pensar que há alguém que ocupa um lugar quando fala. Essa fala é dirigida a alguém instaurando um vínculo social através fala. Mas ao detentor da palavra compete um poder, um certo controle é adquirido pois presume-se que há uma ação sobre o outro que suponho que saiba a verdade sobre mim.

Lacan, então, propõe um novo modelo teórico ao apresentar os quatro discursos que regem nossas palavras.

1) o discurso do mestre: é o discurso modelode todo vínculo social estabelecido pela É a escrita ou inscrição da “tomada da palavra” como tal, fundador do controle. Quando eu falo, eu ajo sobre o outro, eu exerço um certo poder sobre este outro a quem me dirijo. O discurso do mestre exibe um saber consumado, que se sabe a si mesmo, não podendo, portanto, enunciar o inconsciente.

 2) o discurso universitário: meu saber, não reconhecendo a dívida que tenho ao saberdo mestre interpela o desejo de saber do aluno produzindo o sujeito barrado que fica sempre devendo ao saber.

3) o discurso do analista: a partir do seu desejo, escondendo seu saber, o analistaquestiona o sujeito dividido para produzir o significante da sua singularidade. O analista é identificado ao objeto (a)que provoca a palavra do analisando ($). A análise supõe um saber (S2) no lugar da verdade, saber que o analisando atribui ao analista e que é também o seu saber inconsciente.

4) discurso da histérica: a partir do fato de ser sujeito barrado, a histérica questiona o mestrecolocando-o para trabalhar e produzir um saber. O discurso histérico é uma defesa contra odiscurso do mestre S1 para obter um saber S2 sobre seu gozo, pois produz um saber que não goza, não há uma última verdade sobre si mesmo, o ganho aparece como perda, uma inexorável insatisfação, um furo no significante.

A histérica possui uma mensagem codificada de uma força extraordinária em manipular e enganar, assim como Dora fez com Freud. Demonstrando uma capacidade de adaptação ao outro e aos desejos do outro, mesmo não se dando conta, vai usar e abusar do outro, usando seu charme e seu poder de sedução para atrair o outro e, depois, deixá-lo a mingua, mostrando ao outro o quanto nele falta para lhe completar.

O que querem as histéricas? Elas querem o que “eles” não têm, ou seja, elas querem o que neles falta. Ela procura um homem que reconheça nele mesmo que há um vazio que ela, mesmo que temporariamente, poderá preencher.

A histérica se pergunta se pode ser amada. Ela quer saber quem tem o falo. A mãe? Outra mulher? O que ela quer do homem? Para ela, os homens não são objetos de amor, mas, sim, objetos de identificação, tentando resolver seu próprio enigma: sou eu um homem ou uma mulher? O discurso da histérica é um discurso enigmático a ela mesma. Ela pede para que digamos quem ela é e, aceita ser o que querem que ela seja, dando ao outro poder total de saber sobre ela. Ao mesmo tempo, ela se impõe limites a esse saber dando origem aos seus sintomas, pondo seu corpo como o lugar para encontrar as respostas às suas perguntas. Assim, o sujeito enquanto tal, por estar imerso na linguagem, é um sujeito histérico. O sujeito com o qual a psicanálise vai se haver: um sujeito dividido, um sujeito do inconsciente.

 

A neurose obsessiva

Nesta segunda parte, tentarei colocar o que eu entendi sobre os aspectos que caracterizam a neurose obsessiva. Sabemos que um dos conflitos encontrados na neurose obsessiva é o sentimento forte de culpa. Freud fala do sentimento de culpa, inerente ao obsessivo, como algo relacionado à imagem paterna. A obsessão tem a ver com o pai: como ele entra na vida erótica de um filho, o funcionamento de uma sexualidade infantil. Tem a ver com as representações dos afetos atuais vinculados às primeiras experiências infantis que proporcionavam gozo e que aparecem em forma de amor e ódio, uma dualidade que parece não ter fim. Não há conclusão da identificação com o pai, ora ele rivaliza com o pai, ora ele submete-se a ele. O obsessivo sofre de uma cisão entre a ‘lei do pai, onde ele precisa tudo sacrificar e a mesma ‘lei’ que ele precisará derrotar.

Na sua fantasia, ele teme em destacar-se do objeto e perder o amor dele; mas o que faço com o ódio que tenho dele? Então, se faço o que ele quer, ele me ama. Se não faço o que ele quer, ele me deixa: isso representa a submissão ou rebeldia quanto à função materna. Ele tem de renunciar a algo. Assim, existe um medo do super ego, a severidade da consciência, e a percepção de que o ego deve estar sempre sendo vigiado. A culpa, então, vai se tornar a expressão mais ligada com esse ‘privilégio’ incestuoso da criança quanto á castração.

Ao se fixar eroticamente à mãe, ele permanece com o temor da castração, que parece nunca desaparecer, e a forma que ele consegue gerir isso é fazer, através de seus sintomas: a perda do objeto que seja adiada, ad infinitum, ele age, sintomaticamente, no campo da culpa. Nele, o recalque desconecta o afeto da idéia e a idéia continua sem carga mobilizadora. As idéias obsessivas são as batalhas do sujeito confrontadas com a castração. A sua incapacidade de renunciar ao objeto, adiando a castração, é o conflito existencial do neurótico obsessivo. Nesse confronto entre a função ideativa e um afeto descolado dela, surgem os sintomas ligados a situações de perda e o medo da morte de alguém querido, as compulsões a repetição, uma forma de se sentir protegido de seu desejo inconsciente.

 

A Fobia

Não muito diferente do que podemos observar num quadro de neurose obsessiva, vemos que a fobia ou neurose de angústia está relacionado aos mesmos mecanismos que produz a histeria e a neurose obsessiva. Em o “Homem dos Lobos”, Freud apresenta a sua mais completa abordagem clínica sobre as fobias. Podemos dizer que tanto a fobia como a agorafobia parecem estar vinculadas ao medo da castração. Contudo, a ansiedade sentida em fobias a animais tem a ver com o medo da castração do ego; ao passo que a ansiedade sentida na agorafobia tem a ver com o medo de tentação sexual. De qualquer forma, ambas colocam uma restrição a seu ego para escapar do perigo de ceder aos seus desejos eróticos com o pavor de ser castrado por isso. Nesse momento, o que rege tal funcionamento é a persistência da sexualidade infantil: a impossibilidade do ego em renunciar.

Para tratar das fobias, Freud estabelece a diferença entre a inibição e um sintoma. Enquanto a primeira não tem uma implicação patológica, a segunda mostra a presença de um processo patológico, como uma conseqüência do processo de repressão. No caso do pequeno Hans, o fato dele recusar-se a sair na rua era uma inibição, o fato de ele ter medo de que um cavalo iria mordê-lo é o sintoma.

Ao se encontrar em uma posição hostil perante o pai, a quem ele amava, um conflito se instala: um amor e um ódio direcionados à mesma pessoa: o surgimento da fobia substituindo o medo da castração. As idéias de que o pai poderia cair do cavalo e se ferir também veio contribuir para a formação do sintoma: o desejo de destruir aquele que atrapalharia a sua relação com a mãe. Freud descreve essa intenção de desvencilhar-se do pai como o impulso assassino do complexo de Édipo. Daí, o ódio que seria direcionado ao pai é dirigido a outro, o cavalo, transformando a fobia em neurose pelo fato do pai ter sido substituído por um cavalo. Sua fobia eliminou os dois impulsos do complexo de Édipo: a sua agressividade em relação ao pai, onde aparece o impulso agressivo e destrutivo; e o seu excesso de afeição pela mãe, revelando um caráter erótico.

 

Reflexão sobre a clínica psicanalítica

Vimos que as estruturas clínicas em psicanálise estão diretamente relacionadas aos modos de negação do Édipo. Dependendo de como o sujeito lida com a castração, diferentes estruturas serão constituídas: a neurose, a psicose e a perversão, que são formadas por funções, sistemas e articulações e têm origem no momento da castração e, havendo a inscrição da criança no universo simbólico, ou seja, a transição edipiana da natureza para a cultura, ela o fará através de uma dessas três estruturas.

Ao pensar em diagnóstico clínico, devemos ter um mente que não é ele que faz o sujeito entrar em análise, pois o diagnóstico só interessa ao analista. Ele representa um instrumento pelo qual o analista terá acesso de como o sujeito, através de seus sintomas, se assenta em uma estrutura. Para isso, deve-se tentar perceber de que forma o sujeito estruturou sua saída do complexo de Édipo: por meio do recalque, da foraclusão ou do desmentido. Ao diagnosticar um tipo de estrutura no sujeito, o analista poderá perceber como o sujeito se relaciona com o seu desejo e ter mais subsídios para apoiar sua escuta e suas intervenções.

Vimos, ainda, que querer encaixar um paciente dentro de uma estrutura clínica pode trazer limitações ao processo analítico, deixando o analista em amarras que poderão impedir a fluência do processo terapêutico, amarras que possam impedir uma escuta flexível, que faça sentido e que promova transformações nos sujeitos envolvidos no processo analítico. Afinal, o método psicanalítico consiste em dar a palavra, em trabalhar com eixos de operadores clínicos, em dar oportunidade à livre associação feita pelo paciente e, também, às associações feitas pelo analista.

Entendo que estar em processo de análise configura-se, também, estar em constante exercício de articular pensamento e verbalização, por mais desarticulada que a fala possa ser, pois, o que está em jogo é, justamente, a não censura de si; numa tentativa de elaborar, aceitar e transformar algo em nossas vidas, dando conta de nossa afetação; lançando um olhar para as nossas dores, conflitos e fantasias tentando aceitar o que nos foi imposto e com o qual não podemos lutar; deparando-nos, sempre, com a dicotomia de realizar um desejo ou não e aprendendo a lidar com a castração.

O ‘setting’ analítico pode ser um espaço de reconstrução ou resignificação do seu sere estarno mundo. Devemos almejar na nossa prática psicanalítica uma escuta que faça diferença para aquele que fala e para aquele que escuta. Percebo a clínica psicanalítica como algo pendular entre pensar e verbalizar o afeto. O analista, desde seu lugar de sujeito suposto saber, deve dar ouvidos ao que procura um paciente, a fim de tornar o “setting” analítico um lugar possível de realizar um remanejamento afetivo e existencial. Criando espaço para que o texto do paciente auxilie-o a repensar sua “história”, abrindo caminhos para a desconstrução e reconstrução de suas verdades permanentes em possíveis verdades transitórias.

 

Referências Bibliográficas:

Freud, Sigmund Estudos sobre a histeria – o caso Anna, In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol II, Rio de Janeiro, Imago 1996.

Freud, Sigmund Estudos sobre a histeria – o caso Katharina, In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol II, Rio de Janeiro, Imago 1996.

Freud, Sigmund Estudos sobre a histeria – o caso Elisabeth Von R., In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol II, Rio de Janeiro, Imago 1996.

Freud, Sigmund Estudos sobre a histeria – o caso Emma, In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol I, Rio de Janeiro, Imago 1969.

Freud, Sigmund Fragmentos da análise de um caso de histeria – o caso Dora,o quadro clínico In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol VII, Rio de Janeiro, Imago 1996.

Freud, Sigmund Análise de uma fobia em um menino de cinco anos – o pequeno Hans, In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol X, Rio de Janeiro, Imago 1996.

Freud, Sigmund Notas sobre um caso de neurose obsessiva – O Homem dos ratos – Introdução, extratos do caso A,B,C, D,E,F e G. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol X, Rio de Janeiro, Imago 1996.

Freud, Sigmund Notas sobre um caso de neurose obsessiva – O Homem dos ratos – Considerações Teóricas In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol X, Rio de Janeiro, Imago 1996.

Lacan, J. O seminário, livro 17 “o avesso da psicanálise” (Lacan, 1969-1970).

Nasio, J.D. “Como Trabalha um Psicanalista” .Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999.