Cristina da Silveira, Mariana. A CONSTRUÇÃO DE UMA HIPÓTESE DIAGNÓSTICA E O SABER EM ANÁLISE. Ciclo IV – 2013

Num semestre onde nos aprofundamos no estudo das estruturas clínicas sendo aos poucos apresentados à outras possibilidades além da neurose me chamou a atenção tanto nas horas clinicas quanto nos seminários clínicos o afã de meus colegas em estabelecerem uma hipótese diagnóstica diante dos casos e situações apresentados.

Acho louvável quando meus colegas conseguem compartilhar suas impressões sobre um caso fazendo menção à teoria e por algumas vezes citando psicanalistas renomados. Devo dizer que até invejo tal capacidade de fazer valer-se da teoria psicanalítica para fundamentar uma tese dando um status mais erudito à sua escuta e análise.

Não pude deixar de notar também a postura com que alguns analistas convidados e professores abordam as indagações dos colegas. Alguns se colocam num lugar de saber e oferecem respostas claras aos questionamentos levantados ou uma hipótese diagnóstica incisiva sobre uma situação apresentada, enquanto outros optam por abrir ainda mais o espectro de uma questão não oferecendo respostas mas sim lançando mais questionamentos.

Acho ainda mais curioso que em ambos os casos nenhuma das posturas me pareça forçada ou de caráter didático, senão uma forma natural de cada analista se relacionar com as questões que casos clínicos apresentados em seminários clínicos e horas clinicas trazem.

Pessoalmente acho que minha escuta clínica foi bastante aperfeiçoada neste semestre, mas tal escuta ainda está muito empírica, sinto que me falta mais conforto com a teoria psicanalítica de maneira a poder embasar teoricamente o que estou escutando. Quero crer que tal familiaridade chegará com o tempo, o estudo e porque não dizer com a experiência clínica. Ainda assim não posso deixar de me perguntar em que a determinação de uma hipótese diagnóstica pode ser benéfica nos estágios iniciais de uma análise?

E que fique claro que falo aqui em estágios iniciais de uma análise. Algo semelhante ao contato que nós como alunos temos ao ouvir um recorte em um seminário clínico ou situação levantada em uma hora clinica.

Pergunto-me se o saber que estamos adquirindo com o estudo da psicanálise está a serviço de quem? Do paciente que terá um analista mais sensível à sua fala e com mais recursos para verdadeiramente escutá-lo, ou à serviço do próprio analista que precisa ter uma resposta ou uma hipótese que aplaque a sua própria angustia de não saber.

A violência foi um tema recorrente nas horas clínicas deste semestre. Apresentada hora em situações familiares hora no contexto social, o que minha escuta pode perceber permeando o debate em classe era uma busca por respostas. Era como se pelo debate pudéssemos de alguma forma encontrar a resposta para a violência e então agir contra ela. Seja em um caso específico de um analisando em um recorte clínico ou numa visão mais macro da sociedade tratada numa hora clínica, me parece que buscamos sempre uma resposta, como se fosse possível encontrar uma receita passo a passo do que precisa ser feito em um determinado tema. A busca por uma verdade absoluta que venha a ser usada em uma situação.

Acredito que justamente por não se propor a oferecer uma verdade absoluta é que a psicanálise se diferencia da religião. A psicanálise não pretende apresentar-se como a solução à toda a questão do sofrimento humano. Diferente do senso comum Freud não explica tudo e nem se propôs a explicar.

É verdadeiro dizer que o analista não detém sobre seu analisando nenhum saber prévio, que não tenha sido construído a partir de sua escuta. Porém se o analista não detém o saber sobre seu analisando é verdadeiro também dizer que o analisando não detém o saber sobre si. O analisando conhece sua história, seus sintomas, mas não o saber de como seu consciente e inconsciente atuam em seu eu e esse é justamente o trabalho de uma análise.

Mas para que a análise e gere descobertas tanto para o analista quanto para o analisando é preciso que haja uma boa condução da analise, e é este conceito de “conduzir uma analise” que talvez esteja se tornando mais claro para mim a partir desta reflexão.

É fato que sem a escuta de seu analisando o analista nada sabe, mas a partir da escuta de seu paciente o analista se vale de suas ferramentas teóricas para poder destacar pontos importantes sobre como o psiquismo de seu analisando foi sendo estruturado. É poder a partir da escuta pontuar se a questão do analisando tem um caráter narcísico, ou se está ligada à castração, um conflito edípico e assim por diante.

Parece-me que mais que situar o analista ou analisando numa posição de saber, a teoria psicanalítica proposta por Freud e ampliada por seus discípulos pós Freudianos serve como ferramenta para a construção de uma análise. Análise esta que é impossível se não a partir da relação transferencial analista/analisando.

É impossível replicar a experiência transferencial em laboratório. Horas clinicas e seminários clínicos são valiosos para o desenvolvimento de uma escuta mais aprimorada e permitem aos estudantes e psicanalistas ganhar mais habilidades com as ferramentas da psicanálise, mas a análise de fato só acontece na transferência.

Freud por exemplo analisa o caso Schreber a partir de seu livro de memórias e a partir das reflexões que este livro lhe causa faz importantes aportes à sua teoria, mas é impreciso dizer que Freud analisou Schreber. Não existe análise fora da relação transferencial e o saber sobre um paciente é construído em análise.

Por tudo isso acredito que mais importante que uma hipótese diagnóstica num primeiro momento é mais valioso que o analista invista em estabelecer um bom elo vincular na transferência para poder a partir daí construir uma trajetória com seu analisando.

Ainda que minhas conclusões aqui possam parecer óbvias aos mais experientes elas me são muito caras, pois são fruto de um processo de desconstrução que não seria possível sem a participação nas horas e seminários clínicos e sem a caminhada de minha analise pessoal. A fantasia de deter um saber foi o que me conduziu ao estudo da psicanálise. Com o tempo, porém fui aceitando o fato de que o analisando é quem constrói sua analise e levianamente simplesmente transferi o saber do analista ao analisando sem deter-me mais na importância de cada um dos papéis.

Custou-me entender que numa análise o saber transita entre o analista e o analisando ainda que cada uma cada uma destas posições tenha uma função diferente. Se o analisando é quem trabalha em prol de sua própria analise cabe ao analista valendo-se dos conceitos da psicanálise conduzir esta descoberta não como quem oferece o caminho como num mapa, mas como uma bussola que mostra apenas a direção a seguir