Donizeti C. de Almeida Potenza, Maria. A CRIANÇA NO LUGAR DE OBJETO DA SATISFAÇÃO NARCÍSICA.

Resumo: O presente trabalho desenvolve a idéia de narcisismo, em especial a criança no lugar de objeto da satisfação narcísica dos pais e educadores.

No texto “Sobre o Narcisismo : Uma Introdução”, Freud postula a confirmação por inferência de que o afeto dos pais dedicado aos filhos remete-se a reprodução abandonada de seu próprio narcisismo. Explica que, compulsivamente, os pais atribuem a perfeição aos filhos – His magesty the Baby– como se pudessem reviver neles o eu-ideal renunciado. Qualquer observação sóbria colocaria por terra a suposta perfeição do rebento, com o agravante de evidenciar a sexualidade da criança.

Ainda no supremo esforço de colocar a criança neste lugar do eu-ideal narcísico, os pais defendem os filhos das restrições culturais que tiveram que respeitar, como se pudessem viver a transgressão nos filhos, a partir das exigências do direito e do diálogo, do qual se utilizam para reivindicar a liberdade de ser e de agir para os filhos, através do discurso politicamente correto, capaz de ocultar toda a singularidade do desejo narcísico parental. Desejo inconsciente dos pais, que busca suplantar o complexo de castração pelo qual tiveram que passar, e ainda negar a evidência de castração do filho. O ideal do eu filial forma-se na instância da imagem parental.

Num outro texto, “Teoria da Libido e Narcisismo”, Freud fala do narcisismo como complemento libidinal do egoísmo, e esclarece que o egoísmo pressupõe a vantagem do indivíduo, enquanto que no narcisismo a satisfação libidinal precisa ser considerada. Cabe pensar aqui, quanto a busca da vantagem advinda do egoísmo parental intervém na constituição desse sujeito contemporâneo, que só pode ser a partir da sua inscrição nesse mundo de linguagem.

É neste panorama que a busca da realização narcísica parental se oculta; acoberta-se no equívoco da educação para a liberdade, no gozo supremo, sem limites; no direito às escolhas que visem tão somente à satisfação plena do indivíduo. Assim, a realização narcísica parental traveste-se na concessão da liberdade sem limites aos filhos; fator que se apresenta como quebra do paradigma autoritário, que se evidenciava na história ocidental de outrora. Conceder ao filho a liberdade sem limites, traduz-se no sentimento parental de criar as crianças concedendo-lhes o bem maior: livre arbítrio para praticar tudo, alheio aos limites e normas culturais estabelecidas.

Mas é no mal maior que resulta a satisfação narcísica parental, no filho que tudo pode e tudo realiza; que sofre pelo abandono parental inconsciente, que o entrega a um mundo hostil e cheio de restrições. O sofrimento real e psíquico advém da constituição filial na possibilidade da transgressão, em vez do descortinamento cotidiano de um mundo que, desde sempre, espera seres humanos para apresentar-lhes caminhos que os tornem escritores de outras histórias, sempre singulares. O Outro parental é quem primeiro indica o que desejar, e estabelece assim a ordem simbólica; encerra-se nessa premissa a maior de todas as responsabilidades humanas.

A função de exemplo que os pais precisam cumprir são bem elucidadas pela psicanálise. É a partir das transformações da libido objetal e da libido narcísica que a criançaassimila os traços das pessoas que a cercam, e se apropriam de suasexigências. Essa função de modelo estende-se ao educador, que poderá se beneficiar darelação transferêncial, e assim contribuir para a formação do ideal do eu da criança, com os devidos limites que sua posição lhe outorga.

Os problemas seriam menores se a busca docente não estivesse também voltada para a satisfação narcísica. Na educação contemporânea a criança está no lugar do eu-ideal do educador; ocupa o incomodo lugar do objeto de gozo narcísico. Como se o amor e a dedicação de seus mestres só pudessem chegar até essas crianças desde que elas ocupassem esse lugar alienante de desejo; primeiro dos pais e depois dos educadores. Sob a égide da satisfação narcísica do educador, e da repressão pulsional da criança, repousa o orgulho educativo.

Porém, nos dias de hoje, o educador que trabalha na primazia do narcisismo, passa por sérios percalços: na posição de representante das leis e normas educacionais, choca-se primeiro com o eu-ideal dos pais, constituído no filho, cuja posição é de objeto narcísico parental e como tal vive no limiar da transgressão; choca-se depois com seu próprio ideal narcísico de realização no sucesso do aluno, pois percebe que esse sucesso pouco advém do seu poder pedagógico, e muito mais das forças pulsionais que a criança de hoje, encorajada à satisfação, não está disposta a renunciar.

Nesta perspectiva, aos pais e educadores só resta a renúncia narcísica. Não o esvaziamento narcísico desses sujeitos, pois nestas condições só a depressão é possível; mas a renúncia do filho e do aluno enquanto objeto de gozo narcísico. Não é condição fácil, já que tudo se refere aos movimentos psíquicos do inconsciente, lugar onde a maioria desses processos se constituem, para emergir em todos os campos, com os mais diversos disfarces. Mas é preciso um lugar menos alienante à criança. O fato de serem constituídos na linguagem, no campo do Outro, não pode torná-las para sempre reféns desse Outro e objeto narcísico do (pequeno) outro. É preciso lembrar que esse Outro não está no campo do fechamento de sentido, e nem pressupõe qualquer dívida narcísica; pelo contrário, é a partir daí que uma criança pode abrir horizontes estruturando-se no campo do Outro e, ao mesmo tempo, descobrir alternativas criativas e singulares; mas para isso o adulto precisa destituí-la desse lugar de satisfação narcísica; difícil numa época em que a vantagem egoísta parece ir além de todas as premissas.

 

Bibliografia Complementar:

Arendt, Hannah. A Crise na Educação , in Entre o Passado e Futuro. São Paulo – 2009 Ed.Perspectiva.

Millot, Catherine, Freud Antipedagogo – Rio de Janeiro – 2001 – Jorge Zahar Editor.

Fink, Bruce . O Sujeito Lacaniano – Entre a Linguagem e o Gozo.Rio de Janeiro – 1998- Jorge Zahar Editor.