Farina, Patrícia. ACOLHIMENTO E ESCUTA ANALÍTICA NO CUIDADO COM JOVENS TRANSEXUAIS. Ciclo III – 2017

Eu disse:

– E ele se chama Michel. Mas foi como se dissesse:

– E hoje eu vou contar para vocês a história do Michel.

E a primeira pergunta que se fez foi se eu estava de fato utilizando o nome real do paciente, tamanha a convicção com que iniciei a narrativa do caso. Eu aprendi desde os tempos de pesquisadora no Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP que toda narrativa clínica é uma obra de ficção criada pelo analista. Mas de fato, com o tempo somei outros aprendizados como o de atriz e de contadora de histórias o que sem dúvida teve influência nas minhas mais recentes narrativas.

Mas Michel não era um nome inventado por mim. Tampouco o nome de registro do meu paciente. Michel era um nome criado pelo próprio Michel, inspirado num personagem de seriado americano ou inglês.

Michel é um menino de 25 anos, transexual. Ou pelo menos é assim como eu o vejo, mais como um menino do que como um homem. Mora na Zona Leste de São Paulo com a avó e o atual marido dela. Procura minha unidade de saúde, a UBS República, no centro de São Paulo interessado em realizar tratamento hormonal. Passa por atendimento com clínico geral, colhe seus exames e é encaminhado ao endocrinologista. Parte do protocolo do processo é a avaliação psicológica, Michel busca a unidade de sua região mas a mesma diz desconhecer tal procedimento (avaliação para processo transexualizador), por uma coincidência Michel encontra uma profissional que trabalha tanto em sua unidade na Zona Leste quanto na minha no Centro da cidade e redireciona o caso para nossos cuidados.

Muitas coincidências acontecem nesse percurso. Vejo Michel na UBS anteriormente, logo de seu cadastro e me lembro dele conversando com um amigo no corredor “- Agora vou virar homem!” tenho a impressão de se tratar de alguém com vivência de rua ou no mínimo com malícia de malandragem.

Quando estou de passagem na UBS Sé, uma colega atende um telefonema de Michel confirmando horário comigo na UBS República (?).

Quando de seu primeiro atendimento me conta de uma errância pelas UBS Santa Cecília, República, Sé e Vila Jaguaré, esta última sua referência em seu bairro, em busca da avaliação Psicológica, desanimado efetua o uso de hormônios por conta própria com ajuda de buscas na internet e de amigos. Conta-me em tom de confissão.

Como muitas pessoas em processo transexualizador inicia me dizendo que “desde a infância era homem” (sic) imediatamente procuro esclarecer que não precisa me convencer de nada e que seu acesso a hormonioterapia já está garantido. Peço que me conte sobre ele sem o compromisso de enfatizar a orientação de gênero.

Michel nasceu na zona leste de São Paulo e foi criado pela avó e avô maternos, sua mãe biológica faleceu no parto e seu pai biológico segundo ele mora no bairro, mas não sabe quem é. Sabe muito pouco sobre sua mãe, já viu foto mas sua avó fala muito pouco sobre ela. Conta que chegou a apontar a foto de sua mãe ora confirmando que de fato era sua mãe, ora que era uma tia que não mora em São Paulo. Se lembra de conhecer os tios paternos que moram próximo, mas não o pai. Confirma com vizinhos dados de sua história. “Sim, já falaram que minha mãe era filha dela (avó)” “Sim, já me disseram que meu pai mora mesmo por perto”.

Sabe muito pouco sobre seu nascimento, as recordações que tem da infância é de muita pobreza, abandono e precariedade. Já passou fome junto aos avôs. Seu avô faleceu e hoje vive com a avó e seu segundo marido. Refere que hoje a situação é diferente, a avó é aposentada além de receber pensão do marido falecido, Michel já trabalhou algumas vezes em empregos operacionais e possuem uma casa. Diz que a avó evita falar sobre sua origem, fica triste, incomodada. Michel prefere não provocá-la. Também sente muito medo do que pode ouvir sobre seus pais. Seu maior temor é que o pai seja algum amigo do bairro. Alguém que tenha sido pai na adolescência e hoje conviva com Michel.

Ao final do primeiro atendimento me pergunta se sua certidão de nascimento poderia ter sido forjada uma vez que aparenta ser mais novo do que sua idade real.

Traz tantas incertezas sobre sua origem e sua história que até o documento que possui é questionado. Aqui, levantamos em grupo de seminário clínico algumas hipóteses que poderiam ter se constituído inclusive numa intervenção.

Estaria Michel se sentindo mais novo? Eu mesma o via como um menino, embora já contasse com pouco mais de vinte anos. A pergunta sobre a certidão não estaria relacionada a um renascimento, neste momento com o andamento de seu processo transexualizador? Ou o incorreto de sua certidão, não seria o ano, mas o nome e o gênero, uma vez que agora com a transexualização tinha seu nascimento legítimo.

Também revela uso abusivo de cocaína onde utilizou quarenta mil reais da avó em consumo de droga. Está há cerca de um mês sem utilizar a droga. Atentou-se à orientação médica de que isso comprometeria seu processo transexualizador.

Conta que sempre se identificou com o gênero masculino, mesmo quando era uma mulher lésbica, era do tipo “bofinho” que se interessada por outras “bofinho”, chegou a unir-se duas vezes com companheiras e teve namoros duradouros com ambas, que, entretanto também eram usuárias de cocaína.

Refere que frequentou ativamente a noite gay, teve períodos de displicência total com relação ao uso de drogas e álcool. Chegou a endividar-se em quarenta mil reais com cocaína e hoje ainda paga essa dívida. Sua avó nunca atentou-se ao uso do neto, mesmo com relação a dívida lhe diz que ele gastou seu próprio dinheiro que lhe serviria para seu futuro.

Um amigo, o Rafa e sua “cunhada”, entenda-se a namorada de uma amiga que ele considerava como uma irmã, tem papel fundamental na suspensão do uso e inserção no processo trans. Rafa pede que Michel passe uma semana em sua casa e nesse período conversa com Michel, que nessa época é Chambinho, sobre a possibilidade de transição de uma mulher lésbica para um homem trans e o alerta a respeito do consumo de cocaína. Sua cunhada se mantém sempre disponível para escutar Michel e posteriormente endossa a fala de Rafa.

Michel conta que quando ganhou o apelido de Chambinho dos colegas sentiu grande satisfação e desde então exigiu que somente o chamassem assim. Rafa, diz notar o quanto Michel se irritava quando os colegas insistiam em chamá-lo por seu nome de registro e não de Chambinho ou quando lhe provocavam “Pára de pagar de homem, você é menina!”.

Novamente com a contribuição das discussões do seminário, compreendemos Chambinho como um nome transicional, sem denotação de gênero que ajuda Michel na construção de uma nova história onde Chambinho está na origem de Michel. Mas foi preciso que terceiros lhe mostrassem essa possibilidade da homossexualidade à transexualização. Quem autoriza que Michel seja um homem? O Rafa?

Hoje Michel se surpreende, pois nos tradicionais encontros com os amigos LGBT no Parque do Ibirapuera conheceu e se interessou por um homem trans com quem namora atualmente. Novamente busca o igual, o que é comum entre ambos (são transexuais) e, portanto de fácil compreensão entre os dois.

Pontuamos que seja na posição de mulher cisgênero lésbica quanto na de homem trans que se envolve com outro homem trans, Michel não corre o risco de se envolver sexualmente com o pai. Lembrando que seu maior medo é de que ambos tenham crescido e convivido juntos uma vez que vivem no bairro. Michel evitaria assim qualquer possibilidade de incesto, submetido ao totemismo tal como no texto Freudiano Totem e Tabu estudado neste semestre.

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No segundo atendimento diz estar leve e feliz por ter conversado com alguém que não questiona sua identidade de gênero e orientação sexual, o que não acontece em sua família e com boa parte de seus amigos. Conta que vê os profissionais de saúde como professores orientadores e ansia por encontrar com a médica e dizer que teve um deslize tomando hormônios por conta própria mas que brevemente reorientou seu caminho e está fazendo tudo certo. Evita amigos, namoradas e baladas em que o uso de cocaína seja prioridade. Fica satisfeito por ter amigos que o alertam sobre consumo abusivo de álcool e recomendem que ele volte prá casa.

Enfatiza novamente que atentou-se ao uso de cocaína quando o médico lhe alertou que poderia lhe trazer prejuízos se o uso fosse concomitante ao de hormônios.

Nesse atendimento traz desejos pela militância na questão trans. Diz ter vontade de contar sua história em escolas, falar sobre sua experiência, ajudar os demais. Me pergunta se pode fazer isso e como deve proceder. Já esteve no Centro de Cidadania LGBT de sua região e entende que esse seja um caminho para realizar este trabalho. Michel estudou até o segundo ano do ensino médio e não descarta a possibilidade de concluir seus estudos e fazer uma faculdade, não consegue me dizer o nome da carreira que gostaria de seguir e neste momento me parece muito um menino “Quero trabalhar com tal coisa, não lembro como chama o nome de quem trabalho com isso, mas tem faculdade sim”.

As perguntas de Michel me parecem um pouco pueris e de fato percebo que coloca os profissionais ou mesmo os amigos como “tutores”, os que lhe dizem o que deve fazer, o que é certo, o que lhe ajuda, o que lhe faz bem. Michel não faz referência a nenhuma experiência de cuidado familiar, mesmo as mais simples como alimentação, orientação e higiene. Embora seja grato aos avôs por o criarem refere ser ele quem cuida da avó hoje. O cabelo foi a última mudança em sua aparência, pois sua avó resistia que ele cortasse. Hoje ela começa a chamá-lo pelo nome social, mas com o marido dela ainda acontecem muitas brigas.

Conta que gosta de seriados e desenhos, algumas de suas tatuagens tem ligação com esses personagens outras tem relação com a família (avó e avô). Além das tatuagens tem um piercing na língua de que gosta muito. Curiosamente minha reação neste momento é com relação a orientar/questionar a higienização do piercing.

Mantém, tal como observei desde o primeiro contato certa agitação, ansiedade, inquietude. Me pergunta como diminuir tais sensações e diz ser assim desde antes do uso de substância. Conta um pouco de sua trajetória com as drogas álcool, maconha e cocaína, interessando-se prioritariamente por esta última, mas já adulto, após os 18 anos. Afirma ser este seu primeiro atendimento em saúde mental. Aceita a indicação de um grupo de práticas integrativas e medicina tradicional chinesa. Algo mais para seguir e “fazer certinho”.

Enfatiza mais de uma vez o quanto precisava falar e estava ansioso por isso. Conseguiu realizar algo que parecia muito difícil – encontrar uma psicóloga. Também enfatiza o quanto é importante o fato de existirem pessoas que apoiam as ações de Michel, a saber, processo transexualizador e interrupção do uso de cocaína. Chega a ser cansativo ouvi-lo repetindo várias vezes à mesma frase.

De fato, penso estar diante de um menino, imaturo emocionalmente, ensaiando novas construções psíquicas de gênero, de origem, de uma nova história dessa vez ao invés de errante – por nomes, corpos, substâncias e serviços de saúde – certa, correta e amparada.

Na reflexão sobre se estamos realizando um acolhimento ou uma análise. Me permito dizer que as opções não são excludentes. A procura por um atendimento psicológico “protocolar”, pré-requisito para a realização de um desejo pode se transformar numa escuta qualificada e analítica de um sujeito onde fora possível construir e ampliar uma história de tal maneira que autorizar ou não o hormônio é algo insignificante diante do protagonismo do sujeito que surge ali. É nessa escuta onde origina-se a subversão ao protocolo e não seria na subversão onde é possível a psicanálise?

Outro questionamento surgido em aula fora se a teoria psicanalítica contempla as mais recentes formas de configuração de gênero e sexualidade. Estariam as construções edípicas ultrapassadas? Penso que não!

Nesse sentido me ocorre agora lembrar-me do breve relato de uma menina de 19 anos, adolescente também na busca do atendimento pelos mesmos motivos que Michel. Ariella me diz sobre o fim de um relacionamento com um menino bissexual após quase um ano juntos, entende que assumir-se como uma mulher trans teve intima relação com o fim do namoro “ele não bancou estar com uma mulher trans”. Conta do desconforto que sente ao perceber que os outros meninos só se aproximam dela por curiosidade sexual “Como seria transar com uma mulher trans?” ou da abordagem de homens mais velhos que objetivamente lhe perguntam sobre a possibilidade de prostituir-se “Como seria transar com uma travesti jovem?”. Questiona-se porque simplesmente não pode ter um namorado, sogra e ir ao cinema com ele, como qualquer uma de suas outras amigas cisgênero? Afinal, ela é apenas uma menina de dezenove anos…

Acredito que enquanto fora possível escutá-la tal como nos diz, de maneira simples e ao mesmo tempo instituinte, como uma menina de dezenove anos a Psicanálise certamente terá muito que contribuir.

 

Referências Bibliográficas: 

Freud, S. Totem e tabu[1912-13]. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIII. Tr. br. Órizon Carneiro Muniz. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974.