Kelly Niklis Guidugli, Simone. O FENÔMENO DA TRANSFERÊNCIA NA CLÍNICA COM GESTANTES. Ciclo V – 2013

INTRODUÇÃO

O trabalho que elaborei para este ciclo tem o objetivo de analisar o fenômeno da transferência a partir de uma situação incomum que vivencio em minha rotina profissional, como psicóloga de uma Instituição Hospitalar na área de Cardiologia.

Acompanho mulheres gestantes que tem o diagnóstico de cardiopatia do feto, doenças do coração que geralmente apresentam muita complexidade e gravidade, tendo o bebê, recém-nascido, que ser submetido a intervenções cirúrgicas logo após o nascimento, sendo possível neste processo, grandes complicações e até mesmo a morte.

O programa de atendimento a estas gestantes se caracteriza por um atendimento multidisciplinar que se inicia com a consulta médica e a confirmação do diagnóstico de cardiopatia complexa do feto com necessidade de intervenção precoce, ou seja, logo após o nascimento. Com isso, é oferecido à gestante a possibilidade de realizar o parto na mesma instituição, sendo o bebê levado à UTI neonatal logo após o nascimento, protegendo o pequeno paciente do stress e dos riscos físicos de uma transferência hospitalar, caso o nascimento ocorresse em uma maternidade.

Para tais pacientes é oferecido um acompanhamento psicológico que contempla o período gestacional, desde a descoberta ou confirmação do diagnóstico, uma vez que, em algumas situações tais gestantes já se apresentam na instituição com o diagnóstico realizado em outro Serviço Hospitalar. Este acompanhamento se estende por todo o período hospitalar que envolve o tratamento cardiológico do bebê, perpassando pelo parto, no qual a minha presença se tornou uma rotina.

Desde o início deste programa de atendimento à gestantes, há aproximadamente cinco anos, foi se percebendo a demanda advinda desta população com relação ao acompanhamento psicológico que foi sendo oferecido, mas curiosamente, a situação do parto começou juntamente ao processo psicoterápico a ser uma situação percebida como fonte de angústia para essas mulheres e seus companheiros, pois havia a fantasia de que os bebês correriam risco de morte, ao nascimento, na sala de parto, quando na verdade, isso não é o mais provável, ou seja, geralmente a piora clínica do bebê se dá após algumas horas ou dias de nascido, mas o momento do parto parece suscitar nestas mulheres a angústia de morte.

A gravidez

Conforme Szejer e Stewart (2002), “um filho é, inicialmente, o desejo de um homem, o desejo de uma mulher e do encontro desses dois desejos nascerá um terceiro desejo, desejo de vida que vai se encarnar no corpo do filho”(p.55). Schettini (2001) afirma que o filho representa um terceiro na relação do casal, dando-lhes um novo sentido. Sendo assim, o filho completa o equilíbrio do casal, estabelecendo nesta relação uma verdadeira unidade.

Conforme Freud (1914, p.98) em seus escritos sobre o Narcisismo, “a criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram – o menino se tornará um grande homem, e a menina se casará com um príncipe como compensação para sua mãe…O amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é senão o narcisismo dos pais renascido, o qual transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior”.

Assim, Freud (1914) coloca em destaque a posição dos pais na constituição do narcisismo primário: “O amor dos pais pelo filho equivale a seu narcisismo recém-renascido”. Nasio (1997) explica que se produz uma “revivescência”, uma reprodução do narcisismo dos pais, que atribuem ao filho todas as perfeições e projetam nele todos os sonhos a que eles mesmos tiveram que renunciar. “Sua Majestade o Bebê” realizará os sonhos de desejo que os pais não puseram em prática, garantindo a imortalidade do eu.

De fato, o que geralmente observa-se na clínica com gestantes e casais é que o filho que está por vir é depositário de expectativas, sonhos e projetos. Mas, o que dizer então, sobre a gestante que, no percurso de espera por este bebê, descobre que o herdeiro traz consigo uma malformação – um defeito – que envolve o risco de morte iminente?

Quando pensamos o tema gestação inevitavelmente nos deparamos com a existência e predominância de sentimentos, desejos e necessidades. Através de uma leitura psicanalítica, nesta gama de conteúdos são encontradas manifestações inconscientes atuantes, nas quais a ambivalência é característica deste processo de desenvolvimento da mulher.

Segundo Szejer e Stewart (2002) a ambivalência se constitui do desejo de duas coisas que são contraditórias e por consequência, incompatíveis. Neste sentido uma mulher pode desejar muito ser mãe, mas permanecer no papel de filha, ou ainda, durante a gravidez obter satisfação ao sentir a movimentação do feto e ao mesmo tempo irritar-se com os desconfortos físicos que isso possa lhe trazer. Conforme as autoras acima citadas, “… ser capaz de desejar é ser capaz, também, de não desejar. Os dois movimentos são simultâneos. Senão não estamos mais na ordem do humano e sim na ordem dos animais, que são movidos pelo puro e simples instinto de reprodução” (p. 88).

Maldonado (1976) nomeia essa ambivalência, principalmente nos primeiros três meses da gestação, como “a balança do querer e do não querer” (p. 18), justificando que sempre há uma oscilação entre desejar e não desejar o filho.

Postulou Freud (1915) que o inconsciente é atemporal e regido por suas próprias leis de funcionamento, dispensando pouca atenção à realidade, pois está sujeito ao Princípio do Prazer. Sendo assim, podemos pensar que o conteúdo emocional com o qual se pode deparar diante do processo de gestação, tem significados muito particulares para cada uma das mulheres que se apresentam na condição de gestantes de bebês cardiopatas.

Maldonado (1976) afirma que a gravidez pode ser considerada um período de transição que faz parte do processo natural de desenvolvimento da mulher. Neste processo a mulher precisará se reestruturar e se reorganizar em vários sentidos, pois há inevitáveis mudanças de papéis, nos quais irá se olhar e ser olhada de maneiras diferentes.

Szejer e Stewart (2002) pontuam que a gravidez é para a mulher uma chance de evoluir, de se realizar “no plano individual, para a mulher enquanto pessoa, dar à luz é um rito de passagem, que lhe permite verdadeiramente aceder a um estado de dar à luz a si mesma”(pp. 117, 118).

Diante de tantas mudanças e necessidade de adaptações para a mulher em uma gestação dita “normal”, como será para aquela que se depara com o diagnóstico de cardiopatia fetal? Vale lembrar que o coração é tido como um órgão vital e carregado de simbologia, tais como: a máquina propulsora da vida, a sede das emoções, da bondade e/ou maldade do Ser, dentre outras. Sendo assim, qualquer dúvida sobre sua perfeição anatômica ou funcional, ou mesmo o diagnóstico em si, poderá gerar na gestante intensa angústia e fragilidade emocional.

O parto

A gestante tem ainda de enfrentar o parto em si, situação na qual se vê sem saída, conforme Soifer (1980). Para esta autora o parto é uma situação repleta de ansiedades desde os primeiros sintomas, sendo que algumas delas se referem à separação de dois organismos, onde um vivia, até então, dentro do outro. Partindo desta perspectiva, a mulher enfrentará a situação de assistir o bebê encarregar-se por si só, das funções de respiração, alimentação entre outras, sem a dependência de seu organismo, como durante todo o processo gestacional. Haverá ainda, nova adaptação, que se refere ao retorno ao corpo de não grávida.

Soifer (1980) destaca a perda de um estado e a passagem a outro como fontes de ansiedades profundas, a partir da revivência inconsciente a angústia sofrida por si durante sua própria passagem pelo canal de parto, deparando-se com o trauma de seu nascimento.

Na prática clínica, em muitos casos percebe-se a necessidade materna de proteger a criança em seu ventre e para algumas dessas mães, o nascimento significa ela mesma tornar-se impotente, pois a partir daí, seu bebê estará “jogado à própria sorte”.

Ela não mais será capaz de protegê-lo integralmente, seu organismo não mais poderá realizar as funções que até o momento faz para que o coração de seu bebê seja poupado de esforços e, portanto, menos vulnerável aos riscos da cardiopatia. Além disso, o bebê passará então a ser cuidado por uma equipe que fará as tarefas técnicas de cuidados específicos que ele necessitará, tarefas das quais uma mãe desejante de seu bebê, esperará realizar, tais como: os cuidados de higiene, alimentação, acalentos, entre outros.

Todos estes cuidados, no entanto, embora preciosos na condição do nascimento da criança cardiopata, a qual permanece hospitalizada, podem gerar emocionalmente reações peculiares na mãe por se sentir invadida e talvez incapaz de cuidar de seu próprio bebê.

Szejer e Stewart (2002) apontam que depois do parto, a tomada de consciência da separação da mãe com o bebê é a experiência mais surpreendente, uma vez que este subitamente não está mais nela, o que provoca o que os autores acima nomeiam como descentramento íntimo, ou seja, quando ela vê o bebê ou quando ela o ouve, não o sente como antes, no centro dela mesma. Tal efeito de descentramento, também é confirmado pelo meio, pois diante das consultas e das visitas ao bebê, a mãe não é mais o centro de investigação e de atenção, mas sim o bebê, somente ele.

Diante de todas as questões apresentadas até o momento, busco compreender através desta reflexão meu papel no acompanhamento que realizo com esta população. É nesta relação durante todo o processo gestacional, a partir do diagnóstico de uma anomalia do bebê, que tais mulheres passam a compartilhar comigo nos atendimentos psicológicos suas maiores angústias, medos, frustrações e incômodos.

A partir disto, o parto que passa a ser um tanto quanto persecutório, pois envolve a possibilidade imaginada e, em alguns casos, real, de sofrimento físico, complicações e morte do bebê recém-nascido. A minha presença na sala de parto tornou-se uma rotina, diante das solicitações e demandas apresentadas desde o início do trabalho nesta clínica, sendo hoje uma rotina inovadora nos hospitais de cardiologia de todo o país.

A transferência

No ano de 2012, em um levantamento feito no Programa de atendimento às gestantes mencionadas neste trabalho, quase 90% delas desejaram o acompanhamento da psicóloga durante o parto, dado muito significativo que revela a demanda apresentada por estas pessoas.

Em “A dinâmica da transferência”, Freud (1912, p. 112) afirma que é “perfeitamente normal e inteligível que a catexia libidinal de alguém que se acha parcialmente insatisfeito, uma catexia’. que se acha pronta por antecipação, dirija-se também para a figura do médico”.

As mulheres a que me refiro neste trabalho tem algo em comum com a tal insatisfação a que Freud afirma. Todas estão, conforme citado anteriormente com questões de seu próprio narcisismo frustradas, ou seja, o narcisismo primário, no qual atribuem aos filhos toda a perfeição, não pode ser satisfeito, pois nesta clínica, há a dura realidade da imperfeição! O órgão malformado – o coração – de seus bebês as impede de reviver plenamente seu próprio narcisismo.

Nesta relação profissional, há um vínculo de confiança que é fundamental para que todo o trabalho se desenvolva, e na prática, na maioria das vezes é o que acontece. Parece que as gestantes se sentem tão desamparadas que o cuidado psicológico torna-se, com sua especificidade de oferecer um espaço para a expressão dos sentimentos, e sobretudo do sofrimento envolvido neste processo gestacional, o único momento em que se sentem de fato, cuidadas.

Diante disso, o momento do parto, nestes casos, todos cesarianas, com suas características peculiares de um “procedimento médico para a retirada do bebê”, no qual há uma equipe para oferecer todos os cuidados que o corpo da mulher e o corpo do bebê necessitam, torna-se angustiante, desolador e necessitado de outros cuidados, que envolvem os emocionais.

As gestantes esperam que eu – psicóloga – esteja ao lado delas, oferecendo o apoio que nenhum outro profissional na sala de parto provavelmente poderá lhe oferecer. As expectativas depositadas na figura do psicólogo nesta situação relacionam-se ao amparo, ao cuidado afetivo, ao suporte e acolhimento para a situação ameaçadora que se faz presente no momento da chegada do bebê cardiopata.

Nesta situação costumo desenvolver um trabalho de acolhimento, no qual a parturiente possa se manifestar emocionalmente na sala de parto, revelando ao psicólogo sentimentos, dúvidas, anseios, medos e até mesmo curiosidades sobre o bebê, antes que ele seja trazido até ela. A regressão por vezes ocorre na gestação e no parto, sendo desejado pela mulher a participação de sua própria mãe e quando isto não é possível, representativamente a figura de um profissional que cuide dos afetos, acolha e ampare, portanto, desenvolva simbolicamente a função materna, é no geral, muito bem recebida.

Entendo que a função desempenhada nesta clínica e especialmente nas situações de parto, ocorre em decorrência da relação transferencial positiva que existe nestes casos. Segundo Freud (1912, p. 113) “não é fato que a transferência surja com maior intensidade e ausência de coibição durante a psicanálise que fora dela”, o que me faz pensar que na instituição hospitalar, que não tem nenhuma semelhança com o setting ideal para a realização da psicanálise, a transferência possa acontecer, pois o principal motivo é a possibilidade da escuta analítica, que ao meu ver, onde há escuta, pode haver psicanálise.

Sendo a transferência compreendida como um processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre os objetos a depender do tipo de relação estabelecida, penso que a atenção do analista sobre aquilo que está ocorrendo entre ele e o analisando deve ser apurada, porque é nesta relação que poderá compreender melhor todo o conteúdo apresentado pelo analisando.

A forma como acredito que as pacientes em questão usam (-me) o analista no momento do parto, parece dizer muito sobre a representação da função materna nesta situação, onde podem depositar suas atitudes mais infantis e de dependência, em uma relação onde se sentem mais seguras. Como exemplo, algumas falas: “doutora, fala comigo, quando você fala eu me acalmo” (SiC) ou “se você não estiver lá na hora do parto eu vou arrancar seus cabelos…rs” (SIC). Nos dois casos me parece que o apelo emocional é por amparo, como o amparo materno, que acalma, assegura e conforta. Assim como a segunda fala me faz pensar no ódio infantil quando possivelmente a mãe “falha”, por não satisfazer algo ou simplesmente por não está por perto.

Cabe ao analista captar de forma atenta o conteúdo apresentado nesta relação para conseguir acolher tal demanda e permitir que a escuta analítica seja ampliada através disso.

“Para além das dores do parto, existe o desconforto do desamparo e do abandono vividos”.

Iaconelli (2005)

 

 

Referências Bibliográficas: 

Freud, S. (1856-1939). Sobre o Narcisismo: uma introdução. In S. Freud, Obras  Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, vol. XIV. (Trabalho original publicado em 1914)

_______(1856-1939). O Inconsciente. In S. Freud, Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, vol. XIV. (Trabalho original publicado em 1915).

Iaconelli, V. (2005). Maternidade e Erotismo na Modernidade: assepsia do impensável na cena de parto. Revista Percurso, nº 34.

Maldonado, M.T.P. (1976).Psicologia da gravidez: parto e puerpério. Petrópolis, RJ: Vozes.

Nasio, J.D. (1997) Lições sobre os sete conceitos cruciais da Psicanálise. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Soifer, R. (1980). Psicologia da gravidez, parto e puerpério (I. V. Carvalho, Trad.). Porto Alegre: Artes Médicas.

Szejer, M. & Stewart, R.(2002). Nove meses na vida da mulher: uma  aproximação psicanalítica da gravidez e do nascimento (2.ª ed.). (M. N. B.  Benetti, Trad.). São Paulo: Casa do Psicólogo.